Ao longo do meu
percurso social, educacional e formativo, tive contato com diversas teorias do
conhecimento e correntes de pensamento que contribuíram de maneira decisiva
para a construção da minha visão de mundo. Cada uma delas ofereceu lentes
específicas para interpretar a realidade, compreender o papel do indivíduo na
sociedade e refletir sobre as condições que moldam a existência humana. Entre
essas correntes, duas se destacam por sua profundidade teórica e por sua
influência duradoura em minha trajetória intelectual: o Materialismo
Histórico, associado ao pensamento marxista, e o Existencialismo,
sobretudo na formulação de Jean-Paul Sartre.
Meu primeiro
contato mais sistemático com o Marxismo ocorreu durante a militância no
movimento estudantil, ainda no período em que o ensino médio era denominado 2º
grau. Tratava-se de um contexto marcado por mobilizações, debates políticos e
reivindicações concretas por direitos sociais. Lutávamos por melhorias
objetivas na educação pública — como infraestrutura adequada, quadras
esportivas nas escolas, acesso universal a livros didáticos —, além de
políticas culturais, como a meia-entrada em cinemas e eventos artísticos, entre
outras. Nesse cenário, a teoria de Karl Marx e Friedrich Engels
apresentou-se como um instrumental teórico fundamental para compreender as
desigualdades estruturais da sociedade brasileira.
“Operários” – Tarsila do Amaral (1933)
Segundo Marx e Engels (2007), a história das sociedades humanas é, essencialmente, a história da luta de classes. Essa luta se estabelece entre a classe dominante, a burguesia — proprietária dos meios de produção, como fábricas, bancos e grandes empreendimentos comerciais —, e a classe dominada, o proletariado, que dispõe apenas de sua força de trabalho para sobreviver – o trabalhador. O Marxismo demonstra que a dominação não se restringe ao campo econômico, mas se estende às esferas política, jurídica, cultural e ideológica. É nesse sentido que Marx formula o conceito de superestrutura, responsável por legitimar e naturalizar a ordem social vigente.
De forma
indireta, essa perspectiva sustenta que as ideias dominantes em uma determinada
época são, na realidade, as ideias da classe dominante. Assim, valores,
crenças, normas e até concepções morais tendem a refletir os interesses
daqueles que detêm o poder econômico e político. Tal compreensão foi, para mim,
essencial na leitura crítica da realidade social, especialmente ao perceber
como determinadas desigualdades são frequentemente apresentadas como naturais
ou inevitáveis.
Essa concepção
estrutural da vida social dialoga com a Sociologia de Émile Durkheim,
particularmente com sua noção de fato social. Para Durkheim (2007), os
fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo e
dotadas de um poder coercitivo, capazes de orientar e, muitas vezes, impor
comportamentos. Dessa forma, tanto no Marxismo quanto no pensamento durkheimiano,
o indivíduo aparece fortemente condicionado pelas estruturas sociais,
históricas e culturais nas quais está inserido.
Cálice (Cale-se). Chico Buarque & Milton Nascimento.
Em contraste com essa perspectiva mais determinista, o Existencialismo, sobretudo na obra de Jean-Paul Sartre, inicialmente me causou resistência teórica e filosófica. Diante de uma sociedade profundamente desigual, parecia-me difícil aceitar a ideia de que o ser humano fosse plenamente responsável por suas escolhas. Como sustentar a liberdade individual em contextos marcados pela pobreza, pela exclusão e pela dominação estrutural?
Sartre (2014),
no entanto, propõe uma reflexão radical ao afirmar que “o homem está condenado
a ser livre”. Com isso, o filósofo não ignora as condições históricas e
sociais, mas sustenta que, mesmo nelas, o indivíduo é responsável pelo sentido
que atribui à sua própria existência. Para o Existencialismo, não existe uma
essência humana pré-determinada: o ser humano constrói a si mesmo por meio de
suas escolhas, assumindo, conscientemente ou não, as consequências de seus
atos. Cada indivíduo, portanto, escolhe seu modo de vida, ainda que dentro de
limites concretos.
Com o passar do
tempo, a observação atenta da realidade social e a própria experiência de vida
me conduziram a uma síntese possível entre essas duas perspectivas. Reconheço
que a sociedade impõe limites reais — econômicos, culturais, simbólicos e
políticos —, mas também compreendo que existe aquilo que podemos chamar de consciência
crítica. Quando o indivíduo consegue desenvolvê-la, passa não apenas a
compreender sua condição social, mas também a agir sobre ela, transformando,
ainda que de forma parcial, sua própria realidade e, em alguns casos,
influenciando o meio ao seu redor.
Hoje, reconheço que o Existencialismo oferece uma contribuição fundamental ao enfatizar a responsabilidade individual. Muitas dimensões da vida — a formação pessoal, as amizades, os vínculos afetivos, as escolhas profissionais e amorosas — resultam, em grande medida, de decisões tomadas ao longo do percurso existencial. Recordo-me de situações em que indivíduos atribuíam seus fracassos exclusivamente ao “destino” ou à “falta de sorte”, especialmente no campo dos relacionamentos afetivos. Contudo, uma análise mais cuidadosa revelava que tais trajetórias eram fruto de escolhas conscientes, ainda que mal avaliadas no momento em que foram feitas. Teve oportunidades de está com uma pessoal melhor, mas não. Houve casos em que a pessoa teve a oportunidade de construir uma relação mais saudável e estável, mas a rejeitou, optando por outra que, posteriormente, trouxe sofrimento e conflitos. Atribuir esse resultado ao destino seria uma forma de negar a própria responsabilidade. Não se tratava de fatalidade, mas de escolha — tema que, por sua complexidade, merece ser desenvolvido em outro momento.
Legião Urbana - Faroeste Caboclo
Isso não significa negar a influência do Estado, da classe dominante ou das estruturas sociais. Elas existem, operam de maneira concreta e são, muitas vezes, determinantes. No entanto, como adverte Sartre (2014), mesmo diante das circunstâncias, o indivíduo é responsável pela maneira como reage a elas. Assim, reclamar da vida atribuindo toda a culpa ao sistema pode ser, em parte, legítimo; mas é igualmente necessário olhar para as próprias escolhas e reconhecer o papel que elas desempenham na construção da própria existência.
Andando ou parado,
correndo ou em silêncio,
a vida pergunta.
O passo é seu.
A escolha também.
(Vaz, São Luís - MA. Brasil. 25/12/2025 )
Entre o que nos
foi imposto e o que escolhemos assumir, construímos quem somos. A sociedade
condiciona, mas não decide tudo por nós. Você tem consciência das escolhas que
fez ao longo da sua vida? O que elas construíram — ou destruíram — em você? Deixe
seu comentário e participe dessa reflexão.
REFERÊNCIAS
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 17.
ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido
Comunista. São Paulo: Boitempo, 2007.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo.
Petrópolis: Vozes, 2014.
Nenhum comentário:
Postar um comentário