sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Entre a Estrutura Social e a Escolha Individual: Marxismo e Existencialismo na Experiência Vivida

 

Imagem produzida por IA.


Ao longo do meu percurso social, educacional e formativo, tive contato com diversas teorias do conhecimento e correntes de pensamento que contribuíram de maneira decisiva para a construção da minha visão de mundo. Cada uma delas ofereceu lentes específicas para interpretar a realidade, compreender o papel do indivíduo na sociedade e refletir sobre as condições que moldam a existência humana. Entre essas correntes, duas se destacam por sua profundidade teórica e por sua influência duradoura em minha trajetória intelectual: o Materialismo Histórico, associado ao pensamento marxista, e o Existencialismo, sobretudo na formulação de Jean-Paul Sartre.

Meu primeiro contato mais sistemático com o Marxismo ocorreu durante a militância no movimento estudantil, ainda no período em que o ensino médio era denominado 2º grau. Tratava-se de um contexto marcado por mobilizações, debates políticos e reivindicações concretas por direitos sociais. Lutávamos por melhorias objetivas na educação pública — como infraestrutura adequada, quadras esportivas nas escolas, acesso universal a livros didáticos —, além de políticas culturais, como a meia-entrada em cinemas e eventos artísticos, entre outras. Nesse cenário, a teoria de Karl Marx e Friedrich Engels apresentou-se como um instrumental teórico fundamental para compreender as desigualdades estruturais da sociedade brasileira.

“Operários” – Tarsila do Amaral (1933)

Segundo Marx e Engels (2007), a história das sociedades humanas é, essencialmente, a história da luta de classes. Essa luta se estabelece entre a classe dominante, a burguesia — proprietária dos meios de produção, como fábricas, bancos e grandes empreendimentos comerciais —, e a classe dominada, o proletariado, que dispõe apenas de sua força de trabalho para sobreviver – o trabalhador. O Marxismo demonstra que a dominação não se restringe ao campo econômico, mas se estende às esferas política, jurídica, cultural e ideológica. É nesse sentido que Marx formula o conceito de superestrutura, responsável por legitimar e naturalizar a ordem social vigente.

De forma indireta, essa perspectiva sustenta que as ideias dominantes em uma determinada época são, na realidade, as ideias da classe dominante. Assim, valores, crenças, normas e até concepções morais tendem a refletir os interesses daqueles que detêm o poder econômico e político. Tal compreensão foi, para mim, essencial na leitura crítica da realidade social, especialmente ao perceber como determinadas desigualdades são frequentemente apresentadas como naturais ou inevitáveis.

Essa concepção estrutural da vida social dialoga com a Sociologia de Émile Durkheim, particularmente com sua noção de fato social. Para Durkheim (2007), os fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de um poder coercitivo, capazes de orientar e, muitas vezes, impor comportamentos. Dessa forma, tanto no Marxismo quanto no pensamento durkheimiano, o indivíduo aparece fortemente condicionado pelas estruturas sociais, históricas e culturais nas quais está inserido.



Em contraste com essa perspectiva mais determinista, o Existencialismo, sobretudo na obra de Jean-Paul Sartre, inicialmente me causou resistência teórica e filosófica. Diante de uma sociedade profundamente desigual, parecia-me difícil aceitar a ideia de que o ser humano fosse plenamente responsável por suas escolhas. Como sustentar a liberdade individual em contextos marcados pela pobreza, pela exclusão e pela dominação estrutural?

Sartre (2014), no entanto, propõe uma reflexão radical ao afirmar que “o homem está condenado a ser livre”. Com isso, o filósofo não ignora as condições históricas e sociais, mas sustenta que, mesmo nelas, o indivíduo é responsável pelo sentido que atribui à sua própria existência. Para o Existencialismo, não existe uma essência humana pré-determinada: o ser humano constrói a si mesmo por meio de suas escolhas, assumindo, conscientemente ou não, as consequências de seus atos. Cada indivíduo, portanto, escolhe seu modo de vida, ainda que dentro de limites concretos.

Com o passar do tempo, a observação atenta da realidade social e a própria experiência de vida me conduziram a uma síntese possível entre essas duas perspectivas. Reconheço que a sociedade impõe limites reais — econômicos, culturais, simbólicos e políticos —, mas também compreendo que existe aquilo que podemos chamar de consciência crítica. Quando o indivíduo consegue desenvolvê-la, passa não apenas a compreender sua condição social, mas também a agir sobre ela, transformando, ainda que de forma parcial, sua própria realidade e, em alguns casos, influenciando o meio ao seu redor.

Hoje, reconheço que o Existencialismo oferece uma contribuição fundamental ao enfatizar a responsabilidade individual. Muitas dimensões da vida — a formação pessoal, as amizades, os vínculos afetivos, as escolhas profissionais e amorosas — resultam, em grande medida, de decisões tomadas ao longo do percurso existencial. Recordo-me de situações em que indivíduos atribuíam seus fracassos exclusivamente ao “destino” ou à “falta de sorte”, especialmente no campo dos relacionamentos afetivos. Contudo, uma análise mais cuidadosa revelava que tais trajetórias eram fruto de escolhas conscientes, ainda que mal avaliadas no momento em que foram feitas. Teve oportunidades de está com uma pessoal melhor, mas não. Houve casos em que a pessoa teve a oportunidade de construir uma relação mais saudável e estável, mas a rejeitou, optando por outra que, posteriormente, trouxe sofrimento e conflitos. Atribuir esse resultado ao destino seria uma forma de negar a própria responsabilidade. Não se tratava de fatalidade, mas de escolha — tema que, por sua complexidade, merece ser desenvolvido em outro momento.


Isso não significa negar a influência do Estado, da classe dominante ou das estruturas sociais. Elas existem, operam de maneira concreta e são, muitas vezes, determinantes. No entanto, como adverte Sartre (2014), mesmo diante das circunstâncias, o indivíduo é responsável pela maneira como reage a elas. Assim, reclamar da vida atribuindo toda a culpa ao sistema pode ser, em parte, legítimo; mas é igualmente necessário olhar para as próprias escolhas e reconhecer o papel que elas desempenham na construção da própria existência.


Andando ou parado,

correndo ou em silêncio,

a vida pergunta.

O passo é seu.

A escolha também.

(Vaz, São Luís - MA. Brasil. 25/12/2025 )


Entre o que nos foi imposto e o que escolhemos assumir, construímos quem somos. A sociedade condiciona, mas não decide tudo por nós. Você tem consciência das escolhas que fez ao longo da sua vida? O que elas construíram — ou destruíram — em você? Deixe seu comentário e participe dessa reflexão.

 

REFERÊNCIAS

 

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 17. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2007.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014.

 






sábado, 20 de dezembro de 2025

MUNDO QUÂNTICO

 

O que é (e o que não é) a Física Quântica!


Fonte: https://ufabcdivulgaciencia.proec.ufabc.edu.br/2018/08/24/explorando-o-mundo-quantico-com-leds/


A Física Quântica é, simultaneamente, o triunfo mais impressionante da inteligência humana e o terreno mais fértil para a confusão conceitual. No cenário contemporâneo, o termo "quântico" saltou dos laboratórios de alta tecnologia para os púlpitos, fones de ouvido de meditação e promessas de enriquecimento rápido. Mas onde termina a ciência e começa a especulação?


 

1. O Coração da Teoria: Entre o Visível e o Provável

 

A Física Quântica surgiu para descrever o comportamento da matéria em escalas microscópicas, onde as leis da física clássica — aquela que rege a queda de uma maçã ou o movimento dos planetas — simplesmente falham. Enquanto a física de Newton é determinística e visível, o mundo subatômico é regido por campos e probabilidades.

O físico Richard Feynman, um dos pilares da teoria moderna, alertava sobre a natureza contra intuitiva desse campo: “Se você acha que entendeu a física quântica, é porque você não entendeu” (FEYNMAN, 1965). Essa frase denota que não estamos lidando com uma extensão da nossa intuição cotidiana, mas com uma realidade fundamentalmente diferente.

Um dos conceitos mais mal interpretados é o da "força invisível". Cientificamente, essa força não é um fluido místico, mas sim a função de onda, uma descrição matemática das probabilidades de um sistema. Conforme o Princípio da Incerteza de Heisenberg (1927), a percepção da realidade é limitada pela própria interação necessária para observá-la: não podemos conhecer simultaneamente a posição e o momento de uma partícula. Isso não significa que a realidade é opcional, mas que ela é "fundamentalmente diferente do que nossos sentidos percebem" (HEISENBERG, 1927).






2. Precisão Terminológica: Física vs. Mecânica Quântica

Embora usados como sinônimos na cultura popular, há uma distinção técnica importante que ajuda a ancorar o debate:

  • Mecânica Quântica: É o arcabouço matemático e o formalismo teórico. São as ferramentas — como as equações de Schrödinger e matrizes de Heisenberg — usadas para prever o comportamento de sistemas microscópicos.
  • Física Quântica: É o campo mais amplo de estudo. Ela investiga os fenômenos físicos e as aplicações práticas, como o funcionamento de lasers, semicondutores e aparelhos de ressonância magnética.

Como explica Manjit Kumar (2008), enquanto a mecânica nos diz rigorosamente "como" o átomo funciona através de leis probabilísticas precisas, a física busca compreender "o que" esses resultados significam para a natureza da matéria.









3. O Fenômeno do Misticismo Quântico: De Curas a "Jesus Quântico"

Atualmente, vivemos o que a academia chama de misticismo quântico. O termo tem sido sequestrado para validar práticas sem evidências, como "músicas para atrair riqueza" ou "curas quânticas" milagrosas. Recentemente, a apropriação chegou ao campo religioso com conceitos como o "Jesus Quântico", tentando conferir legitimidade científica a questões de fé.

Segundo Massimo Pigliucci, essa prática é uma forma de pseudociência que utiliza o prestígio da física para vender conceitos metafísicos. Pigliucci (2010, p. 54) afirma:

"A linguagem da mecânica quântica é frequentemente sequestrada por aqueles que desejam conferir uma aura de autoridade científica a afirmações que são, na verdade, puramente especulativas ou espirituais."

É crucial entender que a incerteza no nível subatômico não implica que o pensamento humano possa moldar a realidade macroscópica ao seu bel-prazer. A ciência quântica possui leis rigorosas; ela não é um "vale-tudo" teórico onde qualquer especulação se torna verdade.


Imagem produzida por IA.

Uma Reflexão de Fato

A proposta aqui não é uma aventura por aventura, mas uma reflexão sobre a realidade. A Física Quântica nos ensina a humildade diante de um universo que não é obrigado a fazer sentido para os nossos sentidos biológicos. No entanto, essa estranheza não deve servir de escudo para o misticismo. Diferenciar o conhecimento empírico da crença espiritual é o primeiro passo para uma verdadeira educação científica e uma percepção mais clara da existência.


REFERÊNCIAS 

  • BARROS, Matheus; SOUSA, Adriano Ribeiro; MARTINS, Silvia. A Física das pseudociências: um olhar para a “cura quântica”. In: XIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências – XIII ENPEC (Em Redes), 2021.

  • FEYNMAN, Richard P. QED: A estranha teoria da luz e da matéria. Lisboa: Gradiva, 1988. (Edição em português disponível via Gradiva/Portugal, amplamente circulada no Brasil).

  • GILMORE, Robert. Alice no País do Quantum: a física quântica ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

  • GRIBBIN, John. À Procura do Gato de Schrödinger. Lisboa: Editorial Presença, 2006.

  • GRIFFITHS, David J. Mecânica Quântica. 2. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2011.

  • HALLIDAY, David; RESNICK, Robert; WALKER, Jearl. Fundamentos de Física: Óptica e Física Moderna. v. 4. 10. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2016.

  • HEISENBERG, Werner. A Parte e o Todo: encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. (Este livro traz as reflexões do autor sobre o seu famoso artigo de 1927).

  • KUMAR, Manjit. Quantum: Einstein, Bohr e o grande debate sobre a natureza da realidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.

  • PARK, Robert L. Voodoo Science: The Road from Foolishness to Fraud. Oxford: Oxford University Press, 2000. (Sem edição em português; título referenciado como "Ciência Vodu" em artigos acadêmicos).

  • PIGLIUCCI, Massimo. Nonsense on Stilts: How to Tell Science from Bunk. Chicago: University of Chicago Press, 2010. (Sem edição em português; título comumente traduzido em citações como "Bobagem sobre pernas de pau").

  • ROVELLI, Carlo. A realidade não é o que parece: a estrutura elementar das coisas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

 



ENTRETENIMENTO COM O TEMA:






Filme:








A física quântica nos mostra que o mundo é muito mais estranho e fascinante do que nossos sentidos percebem, mas essa estranheza tem leis e lógica. Qual foi o conceito que mais deu um 'nó' na sua cabeça hoje? Compartilhe suas dúvidas e percepções nos comentários! Vamos lá!